O que os paleocanais revelam sobre uma época em que o mar estava muito mais distante
Por Guilherme Borsa | Método M.A.P.A. e Borsa Ambiental

A superfície atual da Lagoa dos Patos esconde uma paisagem fluvial. Abaixo dos sedimentos lagunares existem canais e vales escavados quando o nível do mar estava muito abaixo do atual. Isso muda a maneira de entender a nossa planície costeira, pois onde hoje há água na Lagoa dos Patos e Lago Guaíba, já houve rios correndo sobre uma vasta planície.
| O ponto central: Paleocanais são formas erosivas preservadas no substrato e preenchidas por sedimentos posteriores. Eles conectam mudanças globais do nível do mar à história local dos rios Camaquã, Jacuí e de outros sistemas de drenagem do Rio Grande do Sul. |
Quando a plataforma continental virou terra firme
No Último Máximo Glacial, próximo de 18 mil anos atrás, grandes volumes de água estavam armazenados em geleiras ao redor do globo. O nível do mar global encontrava-se cerca de 120 metros abaixo do atual (em nível vertical). A plataforma continental do Rio Grande do Sul (e de muitos estados brasileiros), hoje submersa, estava exposta e funcionava como prolongamento da planície costeira
Com o nível de base mais baixo e a linha de costa deslocada para leste, os rios estenderam seus cursos em direção à borda da plataforma. Eles escavaram sedimentos previamente depositados, formando vales e canais que transferiam água e sedimentos da bacia continental para áreas hoje oceânicas, durante muito tempo ao longo da evolução do nosso sistema costeiro. A interpretação sísmica da planície identificou dois sistemas de drenagem de idades diferentes, separados por superfícies erosivas relacionadas a ciclos regressivo-transgressivos do Quaternário.

Figura 2 – Seção em corte exemplificando a configuração de uma barreira em nível de mar alto e em nível de mar baixo. Esta é uma imagem gerada por IA, com o prompt tendo sido escrito para chegar o mais próximo ao entendimento geológico vigente e a visão do autor. A ideia das imagens geradas por IA é explicar para o não geólogo conceitos de maneira mais visual.
A paisagem enterrada sob a laguna
Os paleocanais não são vistos diretamente da superfície. Eles foram reconhecidos em perfis de sísmica de alta resolução, nos quais aparecem como geometrias côncavas que cortam refletores mais antigos. O mapeamento de vários perfis permite seguir sua continuidade e reconstruir a rede de drenagem pretérita.
Parte desses canais pode ser relacionada aos cursos atuais dos rios Camaquã e Jacuí. O resultado é uma visão integrada das bacias hidrográficas à planície costeira, quando formavam um único sistema de transferência sedimentar durante períodos de nível de mar baixo.
Barra Falsa: um canal, várias fases ambientais
Na região de Bojuru, o canal conhecido como Barra Falsa foi relacionado ao antigo curso principal do rio Camaquã. O canal teria sido escavado principalmente durante a regressão do final do Pleistoceno e posteriormente afogado pela subida do mar. O preenchimento registra mudanças de ambiente, com a base do pacote sedimentar registrando influência fluvial; níveis intermediários mostram condições estuarinas; e partes superiores registram maior influência lagunar ou marinha. Dados de litologia, palinomorfos e radiocarbono indicaram deposição em torno de 9,4 mil anos antes do presente na parte inferior e cerca de 7,3 mil anos em intervalos superiores. O canal acabou fechado pela redistribuição sedimentar associada ao máximo transgressivo holocênico e à regressão subsequente. Assim, a feição atual é apenas a expressão final de uma história que inclui uma história de multitemporal de diversos processos naturais.
O que um paleocanal significa na prática ambiental
Em estudos de dragagem, travessias subaquáticas, portos, fundações, estudos de enchente ou avaliação de recursos hídricos, ignorar essa arquitetura pode produzir um modelo subsuperficial simplificado demais.
O geólogo procura responder três perguntas: qual superfície foi erodida, qual agente escavou o canal e que sucessão de ambientes o preencheu. A resposta exige dados de diferentes naturezas e quase nunca aparece pronta em um único perfil. A lição central é que a superfície atual não representa o começo da história. Ela é o último quadro de uma sequência de transformações.
A paisagem como documento
Os rios soterrados da Lagoa dos Patos mostram como o geólogo lê ausências (há um axioma na geologia de que há mais ausências do que presenças no registro geológico). Os eventos do passado deixam só frames de sua existência, o rio não está mais lá, a planície não está mais exposta e o mar já mudou de nível. Ainda assim, sedimentos e fósseis microscópicos preservam evidências suficientes para reconstruir os processos do passado, e entender os processos do futuro.
Referências utilizadas
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