Borsa Ambiental

O relevo invisível sob a água

Como a sísmica de alta resolução transforma ecos em uma história geológica

ARTIGO 5 • GEOFÍSICA RASA E ARQUITETURA SEDIMENTAR

Figura 1 – Representação didática de um perfil sísmico com refletores sedimentares, paleocanal e anomalia acústica associada a gás raso. Não representa um perfil real. Esta é uma imagem gerada por IA, com o prompt tendo sido escrito para chegar o mais próximo ao entendimento geológico vigente e a visão do autor. A ideia das imagens geradas por IA é explicar para o não geólogo conceitos de maneira mais visual.

O fundo de uma laguna não termina na primeira camada de lama. Abaixo dele existem superfícies erosivas, canais, pacotes sedimentares e zonas com gás. A sísmica de alta resolução permite investigar essa arquitetura sem perfurar ou escavar o fundo dos lagos. Com o registrao dos ecos das ondas sísmicas, o geólogo os converte em informações sobre os processos geológico.

O ponto central: A sísmica não entrega uma fotografia pronta do subsolo. Ela registra contrastes acústicos. A interpretação geológica depende da geometria dos refletores, de seus truncamentos, de sua continuidade e da integração com testemunhos, datações e conhecimento regional.

O que o equipamento realmente mede

Uma fonte acústica emite pulsos que atravessam a água e penetram nos sedimentos. Quando a onda encontra uma mudança nas propriedades do material, parte da energia retorna ao receptor. O perfil resultante mostra refletores, zonas transparentes, superfícies de truncamento e anomalias de atenuação.

Essas feições não são, por si só, “camadas geológicas”. Um refletor pode representar uma mudança de granulometria, compactação, teor de gás ou outra diferença de impedância acústica. A interpretação começa com a descrição do padrão e só depois avança para uma hipótese geol[ógica sobre o material e o ambiente deposicional. 

Figura 2 – Perfil sísmico P.7 de 3,5kHz da célula sul da laguna dos Patos mostrando os elementos arquiteturais sísmicos dos registros de alta resolução, destacando- se a ocorrência de paleovales/ paleocanais e as sequências sedimentares S1, S2 e S3. (modificado de Weschenfelder et al. 2010a).

Sequências, fácies e superfícies erosivas

Este tipo de análise identifica sequências sísmicas compostas por diferentes agrupamentos de fácies. Os limites entre sequências aparecem como descontinuidades que truncam refletores e podem ser interpretados como superfícies erosivas produzidas durante rebaixamentos importantes do nível do mar.

O limite entre essas sequências mais recentes foi associado à regressão do final do Pleistoceno (rebaixamento do nível do mar), próxima de 18 mil anos. Uma superfície mais antiga foi relacionada a um evento regressivo anterior, em torno de 130 mil anos. Sobre essas superfícies, novos sedimentos foram acumulados durante fases transgressivas (subida do nível do mar). 

Esse arranjo permite compreender o substrato como uma sucessão de facies: erosão durante a queda do nível do mar (a plataforma fica exposto ao vento, chuva e rios), facilitando a incisão fluvial. Com a subida do nível do mar, há o afogamento da plataforma, preenchimento das incisões fluviais e sedimentação lagunar e marinha. Logo, o perfil sísmico é lido como registro de eventos, com cada linha contendo uma história.

Gás raso: anomalia acústica não é sinônimo de contaminação

Em vários setores da laguna, o sinal sísmico é alterado por gás presente nos poros dos sedimentos. Foram descritos bolsões de gás e zonas acusticamente turvas. Em concentrações maiores, o gás produz reflexões fortes e pode impedir a visualização de camadas mais profundas; em concentrações menores, causa turvação parcial do registro.

As ocorrências foram associadas principalmente a áreas de paleotopografia rebaixada, canais antigos e depósitos ricos em matéria orgânica. Nesse contexto, a origem proposta é biogênica, ligada à degradação de matéria orgânica em sedimentos quaternários.

Da interpretação acadêmica à decisão técnica

Em dragagens, dutos, cabos, fundações portuárias ou estudos de estabilidade, uma superfície erosiva ou um paleocanal pode representar mudança abrupta de material. Em levantamentos ambientais, uma zona de atenuação pode esconder refletores abaixo dela e exigir métodos complementares.

O conhecimento geológico é que define o nível de confiança da interpretação dos ecos e linhas sísmicas. Uma hipótese baseada apenas em padrão sísmico é diferente de uma hipótese e confirmada por testemunho. A comunicação técnica deve mostrar onde há evidência direta, onde existe correlação regional e onde permanece incerteza. Essa disciplina na linguagem é uma parte essencial do conhecimento profissional: interpretar sem transformar hipótese em certeza.

A paisagem como documento

A sísmica de alta resolução amplia o olhar para além da superfície. Mas o principal instrumento continua sendo o raciocínio geológico para observar padrões, comparar alternativas, integrar dados independentes, declarar limites de confiança, formular e testar hipóteses.

Referências utilizadas

WESCHENFELDER, J. Processos sedimentares e variação do nível do mar na região costeira do Rio Grande do Sul, Brasil. 2005. 141 f. Tese (Doutorado em Geociências) – Instituto de Geociências, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.

WESCHENFELDER, J.; CORRÊA, I. C. S.; ALIOTTA, S. Elementos arquiteturais do substrato da Lagoa dos Patos revelados por sísmica de alta resolução. Pesquisas em Geociências, Porto Alegre, v. 32, n. 2, p. 57-67, 2005.

WESCHENFELDER, J.; CORRÊA, I. C. S.; ALIOTTA, S.; PEREIRA, C. M.; VASCONCELLOS, V. E. B. Shallow gas accumulations in the sediments of the Patos Lagoon area, Southern Brazil. Anais da Academia Brasileira de Ciências, Rio de Janeiro, v. 78, n. 3, p. 607-614, 2006.

CORRÊA, I. C. S.; WESCHENFELDER, J.; CALLIARI, L. J.; TOLDO JR., E. E.; NUNES, J. C.; BAITELLI, R. Plataforma continental do Rio Grande do Sul. In: PROGRAMA DE GEOLOGIA E GEOFÍSICA MARINHA (org.). Plataforma Continental Brasileira: estados do Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: PGGM, 2019. p. 73-158.

TOLDO JR., E. E.; DILLENBURG, S. R.; CORRÊA, I. C. S.; ALMEIDA, L. E. S. B. Holocene sedimentation in Lagoa dos Patos lagoon, Rio Grande do Sul, Brazil. Journal of Coastal Research, v. 16, n. 3, p. 816-822, 2000.

WESCHENFELDER, J.; CORRÊA, I. C. S.; TOLDO JR., E. E.; BAITELLI, R. Paleocanais como indicativo de eventos regressivos quaternários do nível do mar no sul do Brasil. Revista Brasileira de Geofísica, v. 26, n. 3, p. 367-375, 2008.