Borsa Ambiental

A planície que o mar construiu

Como um geólogo reconhece quatro paisagens sobrepostas no litoral do Rio Grande do Sul

Por Guilherme Borsa  |  Método M.A.P.A. e Borsa Ambiental

Figura 1 – Seção transversal E-W esquematizando as relações entre os domínios geomorfológicoso do Planalto (e os depósitos da planície costeira (modificado de Salgado et al., 2021). Esta é uma imagem gerada por IA, com o prompt tendo sido escrito para chegar o mais próximo ao entendimento geológico vigente e a visão do autor. A ideia das imagens geradas por IA é explicar para o não geólogo conceitos de maneira mais visual.

Para quem atravessa o litoral gaúcho pela estrada, a Planície Costeira pode parecer uma superfície extensa, baixa e repetitiva. Para um olho afiado, porém, ela é um mosaico de antigas praias, campos de dunas, depressões lagunares, deltas, banhados e canais, formados em momentos diferentes. O primeiro desafio é aprender a observar e identificar as nuances do terreno.

Figura 2 – Planície costeira com os contrafortes da Serra Geral ao fundo. Foto: Guilherme Borsa.

O ponto central: A Planície Costeira do Rio Grande do Sul não foi criada de uma só vez. Ela preserva sistemas deposicionais superpostos, produzidos por avanços e recuos do mar durante o Quaternário. Reconhecer esses sistemas permite prever diferenças de drenagem, nível d’água, textura dos sedimentos e resposta à ocupação humana.

Uma paisagem jovem, mas com várias idades

A Planície Costeira é uma das grandes províncias geomorfológicas do Rio Grande do Sul e ocupa cerca de 33 mil quilômetros quadrados. Sua formação principal ocorreu durante o Pleistoceno e o Holoceno, intervalo recente quando comparado à idade das rochas do Escudo Sul-rio-grandense ou da Bacia do Paraná é ínfimo. 

A Planície é organizada em quatro sistemas laguna-barreira. Cada sistema reúne uma barreira arenosa, associada a praias e dunas ancestrais, e uma região interna rebaixada, onde se desenvolveram lagoas, lagunas, pântanos, turfeiras, canais e planícies de inundação. Os Sistemas I, II e III são relacionados a episódios pleistocênicos aproximados de 400 mil, 325 mil e 120 mil anos; o Sistema IV está ligado ao máximo transgressivo holocênico, por volta de 5,1 mil anos. Além dessa vasta história, os sistemas laguna-barreira vem sendo retrabalhados tanto pelos processo naturais, como pela ocupação histórica antrópica. 

O que muda de um sistema para outro?

As barreiras são dominadas por sedimentos arenosos, geralmente associados a praias, cristas litorâneas e depósitos eólicos. As áreas lagunares tendem a reunir areia fina, silte, argila e matéria orgânica. Essa diferença granulométrica altera o comportamento do terreno: areias costumam permitir infiltração mais rápida, enquanto sedimentos finos e orgânicos favorecem retenção de água, baixa capacidade de suporte e formação de solos hidromórficos.

Assim, a posição geomorfológica dos elementos da planície costeiro é um dos fatores dominantes quanto ao seu comportamento ambiental. Um cordão arenoso pode estar apenas um ou dois metros acima de uma depressão vizinha, mas essa pequena diferença pode separar um terreno relativamente drenado de outro sujeito a encharcamento prolongado. Na planície, o detalhe altimétrico é parte da geologia aplicada. A morfologia anterior à transgressão também influencia a preservação e a geometria das barreiras. Por isso, a costa não responde de maneira uniforme à subida do nível do mar ou à disponibilidade de sedimentos. Modelos de evolução costeira precisam considerar a morfologia herdada, e não apenas a posição atual da linha de costa.

Como o geólogo identifica essas unidades

O reconhecimento começa por padrões identificáveis em imagens aéreas e modelos digitais de elevação. Cordões arenosos aparecem como faixas alongadas, paralelas ou subparalelas à costa. Depressões lagunares formam superfícies baixas, frequentemente conectadas a banhados e canais ativos ou abandonados. Campos de dunas revelam texturas e orientações relacionadas ao vento, bem como uma característica coloração muito visível. 

Figura 3 – Compartimentação morfológica da planície costeira. Foto aérea de 1964 com interpretação do geólogo Guilherme Borsa.. 

No campo, o geólogo procura mudanças de textura, cor, estrutura sedimentar, teor de matéria orgânica, umidade e posição no relevo. Uma areia quartzosa bem selecionada e estratificada sugere processo diferente de uma lama orgânica escura. Um alinhamento de cristas pode indicar uma sucessão de antigas linhas de costa; uma depressão com vegetação hidrófila aponta para condições de saturação recorrente. A interpretação só se torna robusta quando forma, material e processo são coerentes entre si. Uma feição de relevo não deve ser nomeada apenas por sua aparência, e um sedimento não deve ser interpretado sem considerar a posição geomorfológica em que ocorre.

Por que essa leitura muda decisões ambientais

No licenciamento ambiental, parcelamento do solo, implantação de estradas, sistemas de saneamento ou avaliação de passivo ambiental, a unidade de terreno condiciona a investigação. Em depósitos arenosos, contaminantes dissolvidos podem migrar com maior facilidade. Em áreas lamosas ou turfáceas, podem ocorrer baixa drenabilidade, recalques, gases biogênicos e elevada sensibilidade de áreas úmidas.

O erro mais comum é tratar toda a planície como se fosse um único material homogêneo. A leitura geológica mostra que dois lotes próximos podem pertencer a ambientes deposicionais diferentes e, portanto, exigir estratégias distintas de na análise ambiental.

É esse tipo de raciocínio que transforma o mapa geológico em ferramenta de decisão. Não basta localizar uma unidade; é preciso traduzir sua origem em propriedades, potencialidades e riscos esperados.

A paisagem como documento

O conhecimento geológico não começa decorando o nome dos Sistemas I, II, III e IV. Ele começa entendendo por que eles existem, quais evidências permitem reconhecê-los e que consequências ambientais derivam de cada unidade. A planície deixa de ser uma superfície vazia e passa a ser uma arquitetura construída pelo mar, pelo vento, pelos rios e pelo tempo.

Referências utilizadas

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